ENTREVISTA 074: André Abujamra (Karnak)

Contrariando as regras gerais de ortografia, André Abujamra (1965-2008 e contando) é um homem que viaja muito. Perguntamos como anda sua vida e ele respondeu “Estamos adorando Tóquio”. Demos risadas sem entender muito sua resposta, mas ele ainda a complementou com um “Música serve pra isso”! e mergulhou em um minuto de perfurante silêncio.
Enfim, este cara realmente viaja muito. Em sua jornada, André Abujamra (1965-2008 e contando), iniciou sua carreira musical como metade (ou dois terços, depende) da menor big band do mundo, o Mulheres Negras e atingiu a maturidade (ela não se machucou, fiquem tranqüilos) com o Karnak, um grupo que segundo o próprio Abu (comendo bolacha) é “...um frufo que finha fomo fremifa minumar fons e mimimos ne márias memiões no munbo”... Hoje em carreira-solo, assim sozinho, esbarra consigo mesmo de maneira solitária, num mundo isolado acusticamente que reverbera ao som de uma nota só, na combinação do ninguém com ele mesmo.
Utilizando a máxima de que o mundo é um grande palco, André Abujamra (1965-2008 e contando) é um profissional completo. É músico, trilheiro, ator, produtor, diretor e paulista, mas não pára por aí; no exato momento desta entrevista, André Abujamra (1965-2008 e contando) voava entre nuvens passageiras. Para não atrasar nosso cronograma, comemos uva e, depois da chuva, caprichamos no cerol. Com empinadas ágeis, mãos coloridas e pés no chão, cortamos, aparamos e trouxemos para o nosso universo umbigo este infinito de pé, o multifacetado artista André Abujamra (1965-2008 e...)
Revista Errata - Oi, Cibelli! Posso te chamar de Cibelli? Ou é começar a entrevista com o pé esquerdo? (...) Se eu pudesse refazer essa pergunta eu... refaria. Peraí! Cibelli, posso te chamar de Ravengar? Se eu tivesse que errar, você perdoaria?
André Abujamra - Pode me chamar do que quiser porque, atualmente, neste pseudo-mundo globalizado, ninguém mais sabe nem o que é e nem pra onde a gente vai; tudo que sai sobre mim está errado: dizem que eu sou irmão da Clarisse Abujamra, irmão do Mauricio Pereira... Então me chama do que quiser porque no fim ninguém vai saber se é verdade ou mentira.
Revista Errata - De acordo com um ditado egípcio, a boca de um homem totalmente feliz está cheia de cerveja. De acordo com outro ditado egípcio, todo mundo tem medo do tempo, mas o tempo tem medo das pirâmides. Se misturarmos os dois ditados teríamos algo assim: A boca do mundo de um homem totalmente com medo e feliz está cheia de tempo e a cerveja tem medo das pirâmides. Como você lida com o sucesso internacional do seu trabalho?
Abujamra - Eu sou paulista e sempre ouvi Bolero com música caipira, sushi com macarrão. Gosto de misturar porque sou misturado, eu realmente nasci numa cidade onde escutei tudo ao mesmo tempo e acho que tem muita coisa no universo além do nosso umbigo, por isso eu busco misturar tudo. Tem horas que fica feio... mas quando fica bonito é legal pacas.
Revista Errata - O Livro Multicolorido de Karnak está integralmente disponível para download, iniciativa muito bacana. Como você vê a questão dos direitos autorais e da propriedade intelectual nos meios audiovisual e ambiente?
Abujamra - Olha... Esse lance de direito autoral é uma coisa que me enche o saco pacas. Claro que o artista tem que ganhar direitos, mas hoje em dia, com o advento do mp3 e da Internet, fodeu tudo; não tem mais como o cara fazer uma música e viver dela pro resto da vida. O lance é fazer 1.000.000 de músicas e tentar viver pro resto da vida (aliás quando a gente morre a gente pára de viver)... Esta aí mesmo vocês não falariam...
Revista Errata - O filme "Tropa de Elite" venceu o Urso de Ouro de Berlim, mas parece que o cinema nacional, em sua totalidade, ainda é engolido pelo grande urso branco do preconceito brasileiro. O que impossibilita a decolagem da produção nacional de cinema?
Abujamra - Eu acho que a produção nacional já decolou faz tempo... Desde Carlota Joaquina, de 1995 (do qual, aliás, a música é minha).
Revista Errata - Você tem cara de quem bebe bem. Se eu te aliviar desta pergunta, você paga uma rodada?
Abujamra - Só, doutores... Além de não beber nada, sou vegetariano. Água sem gás no camarim apenas. Mas te pago um gioza vegetariano.
Revista Errata - O cenário independente de música aqui no Brasil (no Brasil todo, inclusive na Guiana) vive um baita momento de ebulição, com festivais a rodo e muitas bandas legais surgindo. Qual é o ponto de ebulição do etanol?
Abujamra - Myspace.com
Revista Errata - É verdade que se eu ouvir o seu último disco, o “Retransformafrikando” de trás pra frente, eu perco a garantia do meu som?
Abujamra - Se você ouvir o meu cd Retransformafrikando de trás pra frente, ao contrário mesmo, você vai ver que eu falo sobre a teoria da puberdade mística dos anões pequenos da Áfrika meridional, mas se você ouvir de trás pra frente e de ponta-cabeça, aí você pode morrer porque o cd é comprido e o sangue pode escorrer pelo seu nariz.
Revista Errata - Se a gente te der um cabo telefônico, dois clipes, um livro do Woody Allen, cinco moedas, uma tampa de panela de pressão e uma senhora de meia-idade, o que você vai fazer que vai deixar o Hugo Chávez pau da vida com o Brasil?
Abujamra - O livro do Woody Allen que se chama “Sem Plumas” fala, na página 45, sobre as mulheres de Lovborg, onde elas enforcam latino-americanos com cabos de telefone (sem clorofila, claro). As moedas são efêmeras perto da responsabilidade clínica pagã do século 21; a tampa da panela de pressão eu usaria como um chapéu novo do Karnak (que sim... Está voltando em 2008!) e vou fazer um show do Fatmarley pelado pro Hugo Chávez ou ficar puto, ou ficar morrendo de tesão.
Revista Errata - Com qual das alternativas abaixo você se relaciona mais? Por que?
a) Humor
Abujamra - Eu falo tanta coisa triste nas minhas músicas...
Mas a galera ri.
Eu engano todo mundo.
No fundo, eu sou triste pra caralho.
Revista Errata - Você se incomodava quando era confundido com o seu pai? E com o Faustão? Falando em Provocações, manda um pensamento pessimista para os nossos leitores?
Abujamra - Eu amo meu pai. Ser confundido com ele é um presente.
O pensamento pessimista é... Tudo piora!
BATE-BOLA:
- Rockgol da MTV
Legal... Mas a molecada só sabe que eu jogo mal... Nem sabe o que eu faço nessa vida.
- Otto
Maluco beleza... Dei um Djembe pra ele.
- Aurora Boreal
Raridade que não custa caro, mas ninguém vê.
- Jesus
Respeito muito, assim como Ghandi.
- Mama África
Minha religião é o Candomblé, sou metade libanês, metade italiano e o resto é do Brasil, mas a alma é africana sempre.
- Chineses
Clonaram um microfone Noiman muito bem, “Made in China” rocks!
- Barack Obama
Puta nome de banda de World Music!
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