A Gaiola Louca
Vazia de sentido, uma gaiola saiu à procura de um pássaro. Voava aquele vôo torto dos bêbados de alta octanagem, mas voava. Eu não sei como, caramba! Ela voava e pronto! Saco!
Flanando sobre as planícies, sentia o vento frio daquele inverno rigoroso bater em suas grades. Não reclamava, apenas seguia. Havia consigo uma página de jornal para o posterior recolhimento dos dejetos aviários de seu futuro inquilino, que terminou por aquecê-la como um cobertor. A utilidade inédita das coisas surge nos momentos mais urgentes. Eu, por exemplo, precisava de um post para hoje e não tinha texto algum. Quem me salvou foi a gaiola que saiu à procura de um pássaro. Sim, esta é uma história verídica. Continuemos.
Assim seguiu infrutífera sua busca, muito porque era inverno e as frutas haviam morrido. O povo das planícies alimentava-se então de tubérculos e leguminosas, nada mais. O preço da batata monalisa, por exemplo, seguia um absurdo. Em janeiro de 1994, no início do plano real, um quilo de batata custava R$ 0,17 e hoje não sai por menos de R$ 0,70. A isso se dá o nome de inflação. Sim, moderada, pensando que esta galopava antes. A inflação ser uma égua, ou filha de uma, é suposição razoável e lógica, metaforicamente falando.
Talvez a melhor imagem para ilustrar a figura da inflação seja uma zebra. Um animal branco com listras pretas ou preto com listras brancas. O padrão das listras de uma zebra nunca se repete em outras zebras. É como uma impressão digital. Na zebra, há o dedo de Deus, sem dúvida, mas não sei dizer se é um dedo branco com listras pretas ou um dedo preto com listras brancas. Amarelo não é, o que torna um mistério o número imenso de chineses que há no mundo. Esta preocupação também afligiu nossa gaiola: “Eles comem passarinhos”, pensou.
Fazia muito tempo que a gaiola voava sem encontrar um pássaro sequer. Do alto da xizosfera ela viu 300 espartanos enfrentarem o Rodrigo Santoro; viu um bebê nascer numa manjedoura e 57 reis magos partirem em seu encontro; viu a Inquisição e a revolução francesa, mas não soube dizer qual era qual; viu o surgimento de um estranho veículo de meia tonelada que carregava um indivíduo de 80kg; viu a Apolo 11 subir à lua, mas não viu a Challenger até que fosse tarde demais e pediu desculpas; viu a queda do muro de Berlim e frustrou-se por não ter sido o chinês; não viu o atentado ao Wong-Peng-Center porque era cedo demais. Enfim, ela voou por muito tempo, mesmo para uma gaiola de alta octanagem. Cansada e sem ter encontrado o pássaro que lhe encheria de sentido, caiu ao solo.
Era o dia 19 de fevereiro, 2h30, quando começou a nevar ininterruptamente em todo o planeta durante trinta dias. De nada serviram os alertas do ex-vice-presidente-dos-estados-unidos-da-américa-al-gore sobre o desaquecimento global. Antes de morrer de hipotermia, ele disse:
- Deu... (cof, cof)... zebra.
Já nossa gaiola foi mais objetiva:
- Malditos... (cof, cof)... chineses!
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